Festival de Cinema Brasileiro de Paris 2015 de 7 a 14 de abril 2015 no cinema Arlequin
Uma homenagem merecida
Cacá Diegues escreveu este texto, dia 6 de fevereiro, em homenagem ao Eduardo Coutinho, que faleceu.
Para os que crêem, Deus é o que não sabemos, o que não conhecemos, o que não podemos controlar. Atribuimos o mistério a Deus para evitar a depressão da impotência. Para os que não crêem, é só trocar Deus pelo destino.
Quando conseguimos explicar os fenômenos diante de nossos olhos, o conhecimento religioso e as superstições se tornam mito, derrubando a autoridade dele e delas. Durante séculos, o sol girou em torno da terra, para não abalar o poder da Igreja.
Segundo o Gênese, o primeiro delito cometido por um ser humano foi o do conhecimento. Contrariando as ordens do Senhor, Adão e Eva colheram o fruto da árvore do bem e do mal, conquistaram a razão que os diferenciaria do resto da criação.
O segundo delito foi um assassinato em família – com ciúme de Abel, Caim assassinou o irmão. O “familicídio” continuaria povoando a mitologia de nossas origens, desde que Abrãao se dispôs a sacrificar seu filho para servir a Deus. Ou quando Édipo matou Laio, seu pai.
Em nome da razão que conquistamos para desgosto de Deus, não conseguimos aceitar o inesperado, o que consideramos anti-natural, aquilo que os gregos chamaram de tragédia. Preferimos não tentar entendê-la, não tentar decifrar sua natureza. Aceitámo-la assustados e inertes, como uma fatalidade que não podemos evitar, nem nos interessa saber de onde veio ou para onde vai.
Desde domingo passado, muita coisa se escreveu sobre o cineasta Eduardo Coutinho, mas quase nada sobre a tragédia de que ele foi vitima. Os elogios a ele e seu trabalho são mais do que justos. Coutinho não foi somente o maior documentarista da história do cinema brasileiro, como também um dos cineastas mais importantes no cinema contemporâneo em todo o mundo.
Seus filmes eram uma tentativa permanente de conhecer e entender o ser humano, sobretudo aqueles a nosso lado, os mais desimportantes. Coutinho sabia que a humanidade era uma só, que as nossas diferenças não nos separavam. Era tudo natural e ele observava isso com curiosa naturalidade.
A geração de Coutinho, à qual eu também pertenço, fez sua cabeça nos anos 1960, quando o mundo viveu revoluções de comportamento, gestos de rompimento com o passado de injustiças, preconceitos e regras inúteis. A negação das instituições estabelecidas nos levou aos direitos civis, à liberdade sexual, à cultura pop, à consagração do relativismo, à afirmação dos negros, à liberação das mulheres, ao orgulho gay, à informação instantânea, ao valor da psicanálise como reconstrução do indivíduo, a sexo, drogas e rockn’roll.
Os anos 1960 acolheram as aspirações de uma juventude que queria mudar o mundo de um modo diferente do proposto até ali. Segundo Contardo Calligaris, a contracultura foi “a única revolução do século 20 que deu certo e, ao dar certo, melhorou a vida concreta de muitos, se não de todos”.
Uma dessas mudanças estava na anti-psiquiatria inaugurada pelo italiano Franco Basaglia e pelo inglês Ronald Laing. Para esses cientistas, o que era considerado tradicionalmente como loucura, eram apenas formas originais e às vezes mais radicais das mentes humanas se manifestarem. O “louco” convencional passou a ser uma espécie de arauto de novidades sobre o homem, que o “normal” não conseguia exprimir.
Nos anos 1970, Michel Foucault, um de nossos ídolos do relativismo, publicava livro cujo título era a primeira frase do depoimento feito na Justiça francesa, em 1835, por um preso por assassinato: “Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão”. Pierre Rivière, jovem camponês, assassinara a golpes de foice sua mãe grávida de sete meses, sua irmã de 18 anos e seu irmão de sete anos. O que o teria motivado a cometer um ato de tamanha brutalidade? Foucault tentava explicá-lo de modo inteligente e sofisticado, opondo o trabalho jurídico ao psiquiátrico. Mas a mãe e os irmãos de Pierre Rivière estavam definitivamente mortos.
Esses crimes de “familicídio” se repetem ao longo da história da humanidade. Agora que a população do planeta se multiplica em ritmo geométrico, tudo o que acontece com ela também se multiplica, inclusive a tragédia. E a comunicação de tudo que se passa nos chega mais rapidamente, pela informação instantânea através do mundo inteiro, aumentando a importância do número de crimes.
A vida acaba sem que você saiba de onde veio o golpe, mas uma obra como a de Eduardo Coutinho ficará para sempre. No curso da história, seus filmes estarão sempre na lembrança de todos, enquanto sua morte mal será lembrada como uma trágica anedota que não altera o que ele fez. Mas… e se Daniel pudesse ter sido internado, afastado, de algum modo mais humano que a barbárie do hospício, do convívio com aqueles que poderia destruir?
É preciso fazer um documentário sobre Coutinho, é a maior homenagem que se pode prestar a ele. Não um doc inocente, mas um filme que faça perguntas que desvendem a vida, como ele sabia fazer. Não basta o clássico depoimento de amigos que o amavam e o admiravam tanto, como todos nós. É preciso ouvir os personagens e os entrevistados semelhantes aos de seus filmes, seus vizinhos, seu filho promotor, a viúva ferida e sobretudo Daniel.
Carlos Diegues
A 16ª EDIÇÃO DO FESTIVAL DE CINEMA BRASILEIRO EM PARIS JÁ ESTÁ CHEGANDO!
Venha descobrir a coleção dos melhores filmes de ficção e documentários brasileiros no Cinema l’Arlequin de 1 ao 8 de abril de 2014.
Essa primavera brasileira no Arlequin ficará marcada na história. A energia ligada à Copa de mundo será manchada pela lembrança de um período obscuro, aquele da ditadura militar. Nesse 1 de abril de 2014, data de abertura do festival, se comemorarão os 50 anos do golpe de estado de 1964.
O mundo inteiro voltará seus olhos para o Brasil. O Festival de Cinema Brasileiro de Paris escolhe excepcionalmente 2 temas para a edição de 2014: O futebol e a ditadura.
Ao redor desses temas serão programadas homenagens, debates e conversas entre o público e diretores convidados, pré-estreias mundiais, encontros profissionais, um mercado de filmes, conferências sobre as temáticas e sessões escolares.
Através de uma seleção das melhores produções cinematográficas brasileiras, essa 16ª edição questionará a construção de uma identidade brasileira em movimento que se tem transformado e continua a se transformar graças ao futebol e às transformações políticas proporcionadas pelo conflito da ditadura.
Revelaremos regularmente notícias exclusivas na espera de lhes re-encontrar para comemorar juntos 50 anos de história do Brasil!
Festival de Cinema Brasileiro de Paris 2014
Crédito: Felipe Vianna
2014 é um ano importante para o Brasil. É quando o país acolhe a Copa do Mundo e se recorda dos 50 anos do golpe militar.
Futebol e ditadura militar. Temas tão explorados pela cinematografia brasileira, poderão ser apreciados nesta edição, seja pela reapresentação de filmes icônicos como O ano que meus pais saíram de férias e Pra Frente, Brasil!, seja pela costumeira apresentação da produção recente de 2012/2013, tal como Looking for Rio, filme de Eric Cantona que visitou os quatro maiores clubes cariocas de futebol, Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo.
Esses dois temas remetem à histórias pessoais de toda uma geração e, particularmente, tange a minha história de vida. Aos 8 anos, lembro-me da felicidade de presenciar a vitória do Brasil na Copa de 1970, e de, ao mesmo tempo, ver meu avô ser obrigado a partir para o exílio.
Com a projeção de cópia restaurada Cabra Marcado para morrer, o festival fará homenagem a Eduardo Coutinho, presença que tivemos o privilégio de contar em duas ocasiões.
Como em todos os anos, dentre os filmes a serem apresentados, há os temáticos, nove em competição, os documentários recentes, totalizando 26 filmes.
Katia Adler
A 16ª edição do Festival de Cinema Brasileiro de Paris nos oferece oportunidade de refletir acerca de dois temas relevantes: A Copa do Mundo e os 50 anos do Golpe Militar no Brasil.
O que mudou no Brasil desde 1964 e como o futebol se transformou nessas últimas décadas? À época do golpe, o Brasil tinha ganho duas edições da Copa do Mundo e estava em pleno “reino”do Pelé, nosso maior jogador até hoje. Brasília, a nova capital, fora inaugurada recentemente e os ventos políticos do País sopravam em diversas direções. O período marcou também o início da Bossa Nova e as belas canções de Tom Jobim e Vinícius de Moraes ganhavam o mundo.
1964 e a implantação da ditadura militar transformaram o Brasil. As próximas três décadasserão de muita turbulência em todos os campos. O Brasil se desenvolve economicamente, mas as desigualdades sociais se aprofundam. A perseguição política e a censura provocam o exílio de nossos artistas e intelectuais, muitos dos quais se refugiam na França. Nesse contexto, a vitória do Brasil na Copa do Mundo de 1970 constitui símbolo das contradições e paradoxos da época, a alegria do tricampeonato se consumou no período mais negro da ditadura.
No fim dos anos setenta, o início da abertura política e a volta dos exilados coincide com uma crise econômica sem precedentes. Esse período também inaugura um longo “jejum” de vitórias no futebol mundial para o Brasil. Uma nova vitória só virá em 1994, momento em que o Brasil começa a se estabilizar no plano econômico. Desde então, o Brasil buscou mitigar os problemassociais que tanto prejudicaram o país e que agravaram durante a ditadura. Ainda restam muitos desafios, mas um longo caminho já foi percorrido. Ao longo desse percurso, o cinema brasileiro procurou retratar essas mudanças. Nessa edição do Festival de Cinema Brasileiro, veremos uma seleção de filmes sobre a ditadura e a grande paixão nacional, o futebol.
Espero que todos aproveitem para conhecer um pouco mais sobre um período intenso da História do Brasil.
José Maurício Bustani
Embaixador do Brasil na França














